Seminário sobre os impactos do Agronegócio e Agrotóxicos reúne lideranças para discussão crítica sobre as mudanças climáticas

No último sábado (15), o seminário realizado em Ji-Paraná/RO abordou questões urgentes sobre os impactos do agronegócio e o uso indiscriminado de agrotóxicos que tem provocado as mudanças climáticas. A atividade contou  com a participação de professoras e professores, agricultoras agricultores, educandas e educandos da Escola Família Agrícola (EFA)  Itapirema e lideranças que discutiram as profundas contradições do modelo agrícola atual e suas consequências para a saúde e o meio ambiente. O evento contou com palestras e debates que visaram refletir sobre a relação entre o modelo de agricultura vigente e as problemáticas sociais, ambientais e de saúde pública que ele acarreta.

A Guerra Silenciosa e Seus Impactos Socioambientais

A palestra do professor Fernando Bilhava, da Unir Rolim de Moura, destacou críticas ao atual modelo de aprovação de agrotóxicos, apontando a falta de controle e fiscalização. Ele afirmou que a ciência por trás desses produtos vem de fora, submissa ao imperialismo global, e que os agrotóxicos, originados da indústria militar, não foram feitos para salvar vidas, mas para matar. Bilhava alertou para a guerra silenciosa no campo, disfarçada de progresso, e questionou as consequências do veneno que afeta tanto a terra quanto a vida humana, destacando que “vocês têm uma terra para a sua existência, mas não são vistos na vida real. As primeiras vítimas são os explorados e os oprimidos”.

Ele também abordou a grave situação em Rondônia, destacando o impacto das queimadas e a poluição do ar na saúde da população. Segundo Bilhava, “ano passado, as pessoas estavam respirando partículas tóxicas em níveis absurdos. Existe uma partícula, a 2,5 PM, que é a quantidade que o ser humano pode suportar, até 16. No ano passado, eram 780 dessas partículas no nosso organismo”. Ele explicou que, após 8 horas respirando essas partículas, o corpo humano já não consegue mais lidar com elas, e são necessários muitos dias para a recuperação. Essas partículas causam atrofiação pulmonar, tornando o sangue menos oxigenado, o que pode levar a problemas cardíacos graves como aneurismas. “Ou seja, as pessoas não respiraram oxigênio no ano passado”.

A crise ambiental, gerada pela exploração insustentável dos recursos naturais, gera à desigualdade social e ao aquecimento global. O IPCC  – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas alerta que os impactos serão profundos, afetando as populações vulneráveis e exacerbando os conflitos socioambientais. A degradação ambiental, como a destruição da Amazônia, afeta o clima global e o equilíbrio ecológico. Um exemplo dessa crise foi em Porto Alegre, onde a falta de planejamento urbano e a destruição de áreas de proteção causaram enchentes, forçando os pobres a sair de suas casas enquanto grandes empresas lucraram com a reconstrução, evidenciando a interligação das crises social e ambiental.

Cercamento das Comunidades e a Expulsão pelo Agronegócio

Contribuiu com a palestra Claudinei Lucio Soares dos Santos – Advogado, representa o MST/INTERJUS e Coordenador do Fórum Rondoniense de Enfrentamento aos Impactos do Agrotóxicos. Ele também discutiu as consequências do avanço do agronegócio nas comunidades tradicionais e camponesas, como no caso das comunidades em Cerejeiras, Rondônia. Ele relatou como a soja, com suas pulverizações aéreas, tem provocado a expulsão de famílias de suas terras, cercando-as e destruindo suas formas de vida. “A soja chegou e, com ela, o cercamento. Citou a Escola Família Agrícola de Cerejeiras/RO sendo um exemplo disso. “Essa escola estava em um local onde a agricultura familiar era predominante, agora está no meio da soja. Isso é o cercamento que estamos falando”, destacou Claudinei. As comunidades que antes viviam da agricultura familiar estão sendo expostas à violência do agronegócio. E não é apenas uma questão de saúde, é uma questão de existência dessas famílias”, explicou.

No final, ele faz um chamado à juventude, convidando-a a pensar a política de maneira ampla, sem reduzir a participação política ao voto, mas sim fortalecendo os movimentos sociais, sindicatos e espaços de reflexão crítica. O ponto que ele enfatiza é que a verdadeira transformação exige um esforço contínuo e um compromisso com a educação e o estudo das realidades agrárias e políticas que afetam o Brasil.

Neste sentido, o Superintendente do MDA em Rondônia, Gervano Vicente que participou do seminário compartilhou suas reflexões sobre a atual situação política e econômica, destacando a dificuldade de avanços devido à influência do Centrão no governo. Ele ressaltou a limitação das ações e a falta de progressos concretos, mencionando também a questão orçamentária.

A luta pela regulamentação dos agrotóxicos

À tarde, o seminário continuou com a apresentação da minuta de um projeto de lei estadual, de iniciativa popular, que propõe a regulamentação sobre o uso de agrotóxicos e a pulverização aérea agrícola no Estado de Rondônia. Houve um debate intenso sobre o tema, e as entidades presentes se comprometeram a coletar assinaturas e mobilizar a sociedade rondoniense para pressionar o poder público a agir.

O professor Jeferson Lima, da UNIR e coordenador do Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Alto e Médio Machado (CBH-AMMA-RO), destacou a importância da reflexão crítica na educação, afirmando: “O papel dos educadores é formar cidadãos conscientes e éticos”. Ele também criticou a fragilidade da educação pública e a falta de gestão responsável dos recursos hídricos, ressaltando o impacto das desigualdades nas comunidades ribeirinhas: “A prioridade deve ser sempre o ser humano e o cuidado com a terra”. Para ele, “a degradação ambiental é uma ação contra Deus”.

Os participantes reforçaram a necessidade urgente de romper com esse modelo, buscando alternativas como a agroecologia e a redistribuição das terras, garantindo a segurança alimentar e a preservação dos recursos naturais. O seminário foi um chamado à ação, à reflexão e ao fortalecimento da luta por um modelo agrícola que priorize a vida, a justiça social e ambiental.

Ainda há esperança!

 

A mobilização em torno da proposta de regulamentação dos agrotóxicos é apenas o primeiro passo. As entidades organizadoras do evento, como o IPER, Escola de Fé e Política, Kanindé, FETAGRO, e a Rede de Organizações, afirmaram que a campanha para envolver a sociedade e provocar o poder público seguirá em frente. A necessidade de enfrentar a “guerra silenciosa” travada contra o meio ambiente e as comunidades vulneráveis nunca foi tão urgente.

Organização do evento: IPER, Escola de Fé e Política, Kanindé, FETAGRO, OSR e  Rede, ASPR Rio Urupá.